Dia das mães – artigo da psicóloga Tatiana Pedreira

Neste dia das mães nós, do Salvador em Dados, prestamos uma homenagem às mães e ao espírito do cuidado materno, que está presente não apenas nas mães, mas em quem materna, cuida, dedica o seu amor a uma filha ou um filho. Para essa homenagem, contamos com a contribuição luxuosa de Tatiana Pedreira, que além de psicóloga clínica realiza acompanhamentos e orientações para uma educação não violenta. Feliz dia das mães!

Foto: Mídia Ninja

 

“Sempre desejei maternar de forma incondicionalmente amorosa, respeitosa e cooperativa. Sou filha de psicoterapeutas e cresci atenta à relevância da qualidade e da dinâmica do vínculo materno-infantil para a formação do sujeito e de sua relação consigo mesmo, com o outro e com a existência. Para mim sempre foi claro que um vínculo baseado em obediência e submissão, por exemplo, tenderia a formar indivíduos inseguros e, ao mesmo tempo, com tendência à oposição sistemática. As relações interpessoais eram objeto de estudos e debates constantes em minha casa e meu pai era um forte entusiasta do psicólogo social e analista transacional Claude Steiner, autor do incrível “O Outro Lado do Poder”, que aborda a força das relações cooperativas, nas quais todo o sistema ganha poder (ao passo em que, nas relações competitivas e de disputa de poder, todos no sistema perdem força). Assim, educar à base de autoritarismo e de jogos de poder estava fora de cogitação para mim. Castigos, ameaças, gritos, palmadas e inúmeros recursos educacionais ainda hoje de alguma forma normalizados em nossa sociedade eram por mim reconhecidos como adoecedores e anti-pedagógicos, ainda antes de me tornar psicóloga e mãe. Isso crescia à medida em que eu crescia, observava as relações ao meu redor – e as costurava com as teorias de Steiner e da Análise Transacional, sempre presentes em minha vida. A partir do momento em que decidi me tornar psicóloga e passei a estudar desenvolvimento humano de maneira mais profunda e, principalmente, a escutar tantas histórias de tantas infâncias, no consultório, se consolidou e cresceu ainda mais aquele desejo de educar de maneira sensível à saúde psicossocial da criança e do vínculo parental. Mas, para tal, todo o arsenal de recursos ligados à lógica punitiva e autoritária, tudo o que havia de mais (re)conhecido e até mesmo encorajado pelo senso comum, “em nome da educação”, precisava ser revisto, em boa medida abandonado e substituído por recursos outros. Mas que recursos seriam estes, na prática? Como, por exemplo, estabelecer os limites necessários à vida de uma criança ou adolescente sem oprimi-l@, sem desrespeitá-la e nem desrespeitar seus desejos e seu direito de tê-los? Me tornei mãe e esta busca se tornou fundamental para mim. Não mais somente por convicções teóricas: agora, por amor. Não por qualquer amor: por amor materno, este gigante capaz de nos mover além de nós mesmas, além de nossos supostos limites, além de nossos antigos hábitos e quadros referenciais. Assim percebo o amor materno: não como algo que naturalmente nos guia para os caminhos mais acertados, mas sim como algo capaz de nos levar além do que sempre foi para nós natural (muitas vezes por conta de antigos e adoecidos hábitos afetivos, mentais e /ou condutuais).

Era Maio de 2014 quando recebi um presente de dia das mães que quero aqui compartilhar com vocês: O livro “Educar sem violência – criando filhos sem palmadas”, de Ligia Moreiras e Andreia Mortensen, ambas pequisadoras, ativistas pelo respeito à infância e escritoras (Ligia escreve em sua belíssima página “Cientista que virou mãe” e Andréia na “Crescer sem violência” – vai lá!). Ali estava tudo o que eu precisava para costurar meus princípios enquanto psicóloga e psicoterapeuta à maternagem. Foi quando conheci a Disciplina Positiva e seus fabulosos instrumentos para educar à base de diálogo, empatia, cooperação, amor e respeito incondicional. Minha vida de mãe chegou ao lugar sempre por mim sonhado, e passei a desejar que muitas outras mães pudessem ter o que eu tinha – e que, especialmente, tantas outras crianças pudessem ter o que minha filha tinha. Desde lá, venho escrevendo, palestrando e conversando com mães, pais e educadores incansavelmente acerca do que no passado parecia impossível: uma educação livre de qualquer tipo de punição, humilhação, dor, ameaça, culpa ou violência. Sim, educar sem nada disso é não só possível: é também mais eficiente e incomparavelmente mais saudável – para os seres em formação por cuja educação somos responsáveis, para o vínculo que com eles estabelecemos e para nós mesm@s.

Não quero aqui dizer que a tarefa é fácil. Rever antigas referências educacionais é algo extremamente desafiante. Desafiar a lógica autoritária e violenta tão cristalizada em nossa cultura e imaginário de país por tantos anos escravocrata não é tarefa singela. Remar contra toda uma maré de velhos hábitos individuais, familiares e sociais que não só toleram como incentivam a opressão e a violência contra a criança “em nome da educação” pode ser, a princípio, extremamente difícil. Mas lhes digo que é possível – e absolutamente gratificante. Os relatos que ouço no consultório, nos workshops, palestras e rodas de conversa sobre educação não opressiva são de grandes e belíssimas revoluções. Afinal, o amor que temos por nossas crias assim também é: grande, belo e incrivelmente revolucionário. “

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *